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segunda-feira, 23 de junho de 2008

Liberdade

Liberdade... quantas pessoas não sonham com isso
Dizem que podemos ser livres
Mas já não somos??
será que liberdade não é um ponto de vista
Porque posso pensar o que eu quiser
Até posso falar... mas existe um ditado: diga o que quer e vai ouvir o que não quer
Então... melhor não tentar
Quem segura você de fazer o que quer?
No inicio, culpamos os pais, e ai depois, os namorados, os amigos, os noivos, e o marido, e os filhos
E no fim damos conta que na verdade ninguem nunca nos impediu nada
Apenas temos medo
Isso impede de fazer qualquer coisa
O medo... o maior vilão de todos os tempos
Alias, os nomes dos vilões de cinema deveriam ser Will o Sr. Medo
Seria o sobrenome do vilão
Muitas vezes por medo de não dar certo agente nem tenta
Porque é assim não sei dizer
Mas sinto como todo mundo
Por medo deixo tudo o mais
Eu apenas desisto
E sei que todo mundo faz isso... ou pelo menos a grande maioria
Quero ser livre
Livre de meus medos
E quero poder libertar muitos
Todos os que encontrar pela minha frente
Todos que assim quiserem
Eu quero muito
Quero tudo o mais que ainda não sei
Liberdade é coisa assustadora
Seu namoro acaba, você é demitido, muda de cidade e então pensa: “PQP! Eu posso ser quem eu quiser, posso me mover para qualquer lugar”.
Quer algo mais aterrorizante do que saber que você pode ir para qualquer canto, que qualquer coisa pode acontecer com você, que você pode estragar toda a sua vida, sem saber, de um dia para o outro?
Uma doença surge no corpo, você começa a se contorcer, buscar tratamento, travar, até que percebe: você passou seus últimos anos se esforçando para não morrer e se esqueceu de viver.
Está tudo aberto.
Você pode conhecer alguém hoje ou não.
Você pode se dar bem ou não.
Você pode dormir ou ir naquela balada de salsa – sem que tenha a mínima noção dos desdobramentos de ambas as ações.
Você pode estar correndo todo alegre para um precipício, sem que ninguém o avise, sem que ninguém olhe por você.
Você pode perder tudo.
Você pode enlouquecer.
Se tem dúvidas, assista ao filme Antes que o Diabo Saiba que Você Está Morto
Ser livre é motivo de assombro.
Melhor seria se tivéssemos roteiros com garantias (”Se fizer assim, certamente conseguirá isso”), certezas (”Não se preocupe, a vida é exatamente assim, olha”) e seguranças (”Tem alguém olhando por nós e eu vou te amar para o resto da vida, estarei sempre com você”).
Liberdade é ausência de roteiro, vida incerta.
Começar a escrever sobre livre-arbítrio espírita e terminar publicando um livro sobre determinismo neodarwinista. Andar vendado, de costas, no meio de uma cidade em guerra.
Liberdade é não ter ninguém olhando por nós. Ou melhor, ter alguém igualmente livre para olhar e, no minuto seguinte, desviar o foco.
Como não rir de alguém que pede garantias para a mobilidade pura
Na verdade, você não precisa cortar laços com nada, você pode estar casado, seguindo uma carreira, ter acabado de comprar um apê. Objetos, sentimentos, pessoas e situações, tudo bem consolidado e arrumado. Basta chegar em casa um pouco estranho, olhar tudo ao redor e pensar: “PQP! Eu posso ser quem eu quiser, posso me mover para qualquer lugar”. Quem possui algo não deixa nunca de estar na mesma condição daquele que acabou de perdê-lo. A liberdade de estar por cima é a mesma que nos arremessa vida abaixo. Não atentamos para a mobilidade e impermanência do mundo pois ainda guardamos, em nós, alguma sensação de permanência – ainda não nos sentimos como seres plásticos. Não é à toa que, assim que conseguimos a proeza de estabilizar todos os elementos ao nosso redor (nos aproximar do que gostamos e afastar aquilo a que temos aversão), a vida revela sua ironia: se as coisas não mudam, é você quem muda. A casa na praia, aquela que você levou anos para construir, não tem nada de errado, nenhuma infiltração, nada. A praia também não, continua paradisíaca. Mas você, pasme, não mais gosta de areia e mar.
É muito mais fácil ignorar a liberdade, achar que algumas coisas não podemos mudar: “Eu tenho medo de altura, vem desde criança, fazer o que, sou assim, já vou avisando”. Isso nos conforta, autoriza e valida nossos medos e comodismos. É como a parede de uma prisão: se for intransponível, podemos dormir tranquilos; se houver um jeito de ultrapassá-la, a ação está em nossas mãos. Com o desafio surge uma responsabilidade que nunca pedimos. Veja, não é que não desejemos a responsabilidade por nossas alegrias (afinal, adoramos ouvir “Você é autor do seu destino”). Pelo contrário, é a responsabilidade por nossos fracassos que nos aterroriza. É ela que evitamos com vigor.
*Com trechos de "A liberdade de ser qualquer um" por Gustavo Gitti

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